Síndrome do retardo mental associado ao X-frágil
A
síndrome do retardo mental associado ao X-frágil é a causa
mais comum dos retardos mentais hereditários e, depois da síndrome
de Down, a segunda causa genética mais comum de retardo mental
na infância, com uma incidência de 1 em 1500 em meninos e 1 em
2000 em meninas. Ela é associada ao retardo mental tanto em
meninos (mais grave) quanto em meninas (mais leve) e afeta em média
um recém nascido em cada 2 mil. Clinicamente, além do retardo
mental nos meninos, a síndrome está associada a um dismorfismo
facial discreto, aumento do tamanho das orelhas e
desenvolvimento pós-puberal de macroorquidismo. Não há
dismorfismos nas mulheres afetadas. A grande importância do
reconhecimento clínico e diagnóstico específico da síndrome
do X-frágil vem do fato de que virtualmente todos os casos são
hereditários e familiais. O diagnóstico de uma criança com a
síndrome do X-frágil estabelece uma oportunidade valiosa de
fazer estudos na família, para identificar outros afetados e
portadoras, e de fazer um aconselhamento genético eficiente
levando à prevenção de novos casos. Infelizmente, o diagnóstico
clínico da síndrome do X-frágil na infância é difícil por
causa da inespecificidade dos sinais clínicos.
A
mutação que causa a síndrome do X-frágil é a expansão de
um microssatélite com repetições CGG na região promotora do
gene FMR-1. Em indivíduos
normais, esta região varia de 5 a 42 repetições. Em pacientes
com a síndrome do X-frágil, esta região apresenta considerável
expansão para mais de 200 repetições. Estas grandes expansões
causam metilação da região promotora e conseqüente repressão
do gene FMR-1. Uma
pequena proporção de pacientes com a síndrome do X-frágil
apresenta mutações na sequência do gene FMR-1.
Há
basicamente dois tipos de testes laboratoriais que permitem o
diagnóstico da síndrome do X-frágil: testes cromossômicos e
testes moleculares. O valor relativo destes testes depende da
situação específica. Por exemplo, para uma criança do sexo
masculino com retardo mental e pouco ou nenhum dismorfismo, está
indicado o estudo cromossômico completo com pesquisa específica
adicional de X-frágil. A grande vantagem deste teste é que ele
também permite o diagnóstico de outras alterações cromossômicas
que podem ser a verdadeira causa do retardo mental. A
desvantagem é de que ele é relativamente dispendioso e
apresenta uma percentagem pequena, mas significativa, de
resultados falso-positivos e falso-negativos para a síndrome do
X-frágil. Por outro lado, para uma menina com retardo mental é
recomendável fazer diretamente o teste molecular baseado no uso
de sondas de DNA (método de Southern), já que neste caso o
estudo cromossômico para pesquisa de X-frágil tem frequência
altíssima de resultados falso negativos.
Pesquisas
recentes realizadas no GENE - Núcleo de Genética Médica
permitiram o desenvolvimento de novos testes moleculares,
baseados na PCR (Reação em Cadeia da Polimerase), que
apresentam sensibilidade e especificidade de virtualmente 100%
para diagnóstico da síndrome do X-frágil em afetados do sexo
masculino (Haddad et al., 1993; Haddad et al., 1999; Pena e
Sturzeneker, 1999). As grandes vantagens destes testes são
rapidez e baixo custo. Também, como os testes são baseados na
PCR, quantidades muito pequenas de DNA são necessárias,
permitindo usar a coleta de esfregaço bucal, fácil e indolor,
ao invés da coleta de sangue. É nossa opinião estes testes de
triagem deveriam ser realizados em toda criança masculina com
retardo mental em quem se suspeite um diagnóstico de síndrome
do X-frágil ou que não apresente uma suspeita diagnóstica
específica.
Laboratório de Medicina Genômica